A Indecência pode ser Saudável*

Devido a sua pouca experiência no amor, Helga ainda não sabia que só é possível conhecer verdadeiramente um homem quando se descobre o menino que ele esconde, envergonhado, dentro de si. Só depois disso pode-se ama-lo sem maiores riscos. O resto, neles, é quase tudo machismo, até mesmo nos gênios, nos poetas e nos amantes.”

Retirado de Histórias Curtas e Grossas de Roberto Freire

Uma vez, em uma viagem de trem, sentei ao lado de um francês que lia qualquer coisa. Pra puxar assunto, perguntei sobre o que era o livro e ele, completamente desconcertado, tirou uma capa falsa, improvisada pra esconder que era literatura pornográfica.

Não tenho esse gênero como preferência pessoal porque, dos poucos romances com mais erotismo ou pornografia que já li, com exceção, por exemplo, de Feliz Ano Velho (romance autobiográfico do Marcelo Rubens Paiva, livro que eu considero ter feito minha passagem da literatura infanto-juvenil pra adulta), apesar de as histórias serem em geral envolventes, nenhum me trazia riqueza literária o suficiente pra que eu buscasse outros do gênero.

Mas mais recentemente descobri outro autor que o tempero erótico das histórias me satisfaz, o Roberto Freire. Na maioria de seus romances existe, além da literatura de qualidade, erotismo e pornografia de qualidade. Em Histórias Curtas e Grossas (publicado em dois volumes pela editora Guanabara Koogan, 1991), diz-se que Freire pretendia propor um olhar feminino sobre o erotismo.

O primeiro volume (o qual essa resenha pretende tratar) reúne contos ricos de pornografia narrados em primeira pessoa por personagens como a mulher abandonada pelo marido que foi comprar cigarros e já voltava, o travesti com problemas familiares, presos políticos, jovens excepcionais. E mesmo quando a narração vem de um personagem masculino, o olhar é feminino. A sensualidade dos pontos de vista descritos não deixa dúvida.

Diz-se, também, que a capa originalmente escolhida pelo autor era mais provocativa do que a publicada, mas foi censurada pela editora. A original teria a mesma imagem, o desenho de uma mulher nua de bruços, mas uma das mãos estaria entre as pernas, no sexo. A publicada censurou o detalhe da mão.

Independente das histórias que se possa dizer a respeito das publicações e da vida de Roberto Freire, ele faz questão de provocar nossos tabus, e descreve delicadamente e deliciosamente a pornografia que poderia muito bem ter sido descrita pelos olhos de uma mulher. E por que não escrever sobre sexo, sendo ele parte tão importante (e gostosa) da vida das pessoas (ao menos das saudáveis)? As mulheres, a imaginação e o erotismo agradecem.

* O livro, ainda antes de seu sumário e epígrafe, apresenta o texto de D.H. Lawrence, traduzido por José Paulo Paes, A Indecência pode ser Saudável:

A indecência pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda a vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda a vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro torna-se uma missão,
tudo vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

Roberto Freire foi, além de escritor de romances como o Coiote, Cleo e Daniel (adaptado para o cinema), Cúmplices e de livros técnicos, também o criador de uma técnica terapêutica e pedagógica de libertação dos potenciais criativos conhecida como Soma, uma terapia anarquista. Desenvolvida durante a ditadura militar para o auxílio psicológico de presos políticos, a Soma é praticada em grupos de 15 a 20 pessoas, por um período determinado de tempo (aproximadamente 1 ano e meio). Ela trabalha com o desbloqueio da energia por meio de exercícios bioenergéticos (de W. Reich), da gestalterapia, antipsiquiatria e da prática da capoeira angola. Se tiver interesse em conhecer uma de suas dissidências, que mantém a mesma técnica mas acresce a teoria da Biologia do Conhecer – www.somaie.ning.com
A programação para março e abril em SP é o XI Encontro de Teoria e Somaiê:

22/3, domingo, das 15h às 18h e das 18h às 21h, 2 vivências de Somaiê.

28/03, sábado, a partir das 10h - PES - práticas em ecologia subjetiva (ECO) entrada franca (levar lanche) (gratuito).

29/03, domingo, das 14h às 21h - papo sobre pedagogia libertária, oficina de dobrão e vivência de Somaiê.

e ainda mais atividades no último final de semana de abril, 25 e 26/4.

Tudo no Espaço Cultural Tendal da Lapa

R. Guaicurus, 1100 - Lapa

info 11-7662-5322 com rui

A Indecência pode ser Saudável*

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