Carta ao mundo
7/02/2008 · Imprima este artigo
Estado de choque.
Assim que fiquei quando li a carta que Karina Caris escreveu em nome da Sea Shepherd Brasil.
Já escrevi sobre o Sea aqui no Bravus e estamos do lado deles na luta contra as atrocidades praticadas em alto mar - principalmente envolvendo o Japão e as Baleias.
Leia a seguir a carta de Karina, que descreve detalhadamente a caça e os processos de assassinato contra os grandes mamíferos. Os desafios enfrentados na luta e a polêmica declaração sobre o Greenpeace.
Chocante!
Estamos em total atividade, ansiosos para reabastecer e reparar o Steve Irwin e recolher donativos o mais rápido possível, e assim retornar à Antártica e continuar com a nossa perseguição aos baleeiros japoneses que pretendem assassinar quase mil baleias alegando motivo de “pesquisa científica”, algo que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso desacreditaria.
Perseguimos a frota baleeira composta de 7 navios: 5 navios de caça, 1 de suplemento e o navio fábrica Nisshim Maru - a estrela da morte, para onde as baleias são levadas após serem mortas de modo indigno e hediondo. Estamos na Antártica para deflagrar esta logística odiosa e víl. Desprezível pensar no planejamento que uma missão como essa demanda e em todo monitoramento e controle para atingí-la. Por anos trabalhei em uma grande corporação guiada por planejamentos estratégicos e controles que me levariam a conclusão de objetivos corporativos, mas me parece tão insano pensar que houveram reuniões ou formalização de documentos onde foram discutidos e definidos planos de ações para atingimento da cota de aproximadamente 1.000 corpos de baleias.
Sim, houve a definição de um objetivo e o objetivo foi o de prover o Japão com carne de baleia para ser empregada na indústria alimentícia, cosmética e de ração, assim como a revisão do escopo para a temporada 2007/2008 de 935 baleias minkes, 50 baleias fins e 50 baleias jubarte em vias de extinção, esquartejadas. O público-alvo não exclui mães a espera de filhotes ou filhotes.
Tenho um grande desejo de poder observar baleias identificando suas espécies e é odioso pensar que alguém estudou o formato de seu rabo e nadadeiras, de sua cabeça e mandíbula, além de variações de cores e hábitos para apontar suas armas. Sem dúvidas, foi preciso escolher pessoas qualificadas ou treinar pessoas para matarem e processarem a carne. Alguém mandou currículo almejando uma dessas vagas.
Quando aprenderam a matar, essas pessoas foram ensinadas que uma baleia pode levar até 30 minutos para morrer. Eles foram avisados para não se consternarem com o corpo moribundo que se contorce e grita após ser alvejado por arpões explosivos e equipamentos que emitem choques elétricos. Essas pessoas passaram por treinamentos para entenderem que após o golpe de arpão, haverá a explosão de uma granada, rasgando orgãos internos e que ela lutará, porque haverá a liberação de adrenalina em seu cérebro, o que lhe dará forças para tentar escapar. Neste caso, eles foram instruídos para atirarem mais arpões explosivos ou aplicarem choques elétricos para abreviar a morte da baleia e também ganhar tempo para matar outras.
Eles sabem que deverão içar o gigantesco corpo da baleia em cabos e manivelas para atingir o convês do navio fábrica Nisshim Maru.
Os tripulantes do Nisshim receberão o corpo para usar as técnicas de corte aprendidas com as facas “flensing” - um objeto que bizarramente lembra a lança carregada por aquele personagem que personifica a morte. E não se esqueçam: existem companhias que fabricam estas facas e que possivelmente são responsáveis por sua manutenção.
Corpos mutiliados, rabos, barbatanas, entranhas, pele borrachenta e sangue deixam o convés gordurento e vermelho, assim como seus açougueiros. Chão e roupas cobertas de sangue, sangue coagulado, sangue difícil de remover. Aplicar então procedimentos de higiene no convés e deixar o sangue escoar para o mar, tingindo-o ainda mais de vermelho. Armazene a carne das baleias, verifique se a temperatura do freezer está adequada e tenha certeza de que você usou os procedimentos definidos para congelamento da carne.
Nós estamos falando de negócios, portanto pensemos na análise de riscos desta missão e as ações corretivas para minimizar a exposição aos riscos levantados. Um dos riscos mais graves, se não o mais, certamente refere-se às intervenções da Sea Shepherd. E para isso a melhor arma dos japoneses é usar a velha fórmula usada pelos políticos com maestria: manipulação da opinião pública + descredenciamento de nosso trabalho + uso do poder econômico. Eles nos chamam de “eco-terroristas” – após o 11/09, quem tolera a palavra “terrorista”? Acidentes já foram simulados, já perdemos a bandeira de um navio, já fomos acusados de criminosos ilegais, piratas, e recententemente, de racistas.
Com apoio de um advogado, a atividade baleeira foi “legalizada” usando uma brecha na Lei que pemite a caça de baleias para fins de pesquisa. Para conferir autenticidade, cientistas e biólogos foram contratados, se bioprostitutuindo por dinheiro, para atestar, inclusive, a necessidade de matar cerca de 1.000 baleias para uso em, preparam-se, pesquisas para a sobrevivência das próprias baleias. Eles também discordam que existe a possibilidade de se realizar pesquisas sem matar animais e que há perigo de extinção da espécie.
E como justificar o uso da carne? Decidiram dizer que ao invês de jogar fora, desperdiçando-a, ela pode ser usada como alimento. Insistiu-se na perpetuação da “cultura” de se comer carne de baleia, algo que somente um pequeno percentual de japoneses o faz. Servir a carne de baleia envenenada por mercúrio em merenda escolar é uma tentativa de incentivar o público jovem a tornar isso um hábito.
Ainda com o objetivo de desviar a atenção do público para o real problema do extermínio das baleias, uma estratégica a mais foi usada, inspirada nos políticos novamente: a do pão e circo, que marcou a partida da frota baleeira do Japão, onde o espetáculo foi montado com famílias e amigos dos tripulantes exibindo bexigas de baleias sorridentes, com a música“Popeye, o Marinheiro” ao fundo.
É comum em qualquer empresa e neste caso não foi diferente, celebrações no estilo “happy hour”, com levantar de taças para brindar às idéias propostas neste plano de negócios, anunciando promoção de funcionários e aumentos salariais. Agora visualizem esses funcionários chegando em casa anunciando as boas novas para a família.
Como todo negócio, existem riscos imprevisíveis, e neste não seria diferente. Este ano, a pressão mundial os obrigou a tirarem do seu escopo as 50 baleias jubarte em vias de extinção. Outro acontecimento foi a visita de dois de nossos tripulantes em um dos barcos da frota baleeira para entrega de uma carta solicitando a interrupção da matança. Esta ousadia não foi prevista, e por isso mesmo eles tomaram às pressas a decisão tola de mantê-los a bordo e de deixá-los amarrados sob o frio intenso da Antartica por algumas horas. Erros em decisões bem pensadas também acontecem, e eles cometeram um erro crasso exigindo algumas condições para libertarem os tripulantes. Em pouco tempo, o mundo todo estava com os olhos na Antártica e a atenção se voltou para nossa causa.
O poder econômico falou mais alto quando cobrou-se o cumprimento da promessa de campanha feita pelo recém-eleito Primeiro Ministro da Austrália de por um fim à caça às baleias pelos japoneses, evidenciado pelo envio de um navio de alfândega para tirar fotos da atividade baleeira, assim como a tentativa de nos afastar da frota baleeira na entrega de nossos dois tripulantes; apesar da decisão da Suprema Corte australiana em banir a frota baleeira do território Australiano-Antártico. Outro país que se submeteu ao poderio japonês foi os Estados Unidos, através do seu Escritório de Inteligência Naval - responsável pela monitoração mundial de atividade pirata, dando informação sobre ameaças e ações criminosas contra navios comerciais; se prestou ao serviço de auxiliar a frota comercial de baleeiros (sim, você leu corretamente, comercial) provendo-os de informações ao nosso respeito, nos classificando como piratas.
Muitos se pergutarão sobre a análise de retorno financeiro (pay-back) desta missão, já que a carne de baleia não faz parte da dieta japonesa e mesmo por ainda haver carne congelada da temporada passada, além dos várias dias em que eles queimaram combustível à toa nesta temporada e do desgate de imagem sofrido pelo Japão. Talvez o que não esteja claro é objetivo a longo prazo desta atividade. Quando pensamos sobre Antártica, não imaginamos que aquele território coberto de gelo seja rico em matérias-primas preciosas como petróleo, gás, minérios e, quem sabe, a última fonte de água doce do mundo. Quando houver uma guerra sobre os direitos de exploração deste continente, o Japão poderá alegar legitimamente que o tem explorado ininterruptamente com a caça de baleias desde 1946.
Sobre os objetivos a médio prazo, existe o plano de se construir um novo Nisshim Maru, bem maior e eficiente que o atual, com capacidade para triplicar o armazenamento de carne. Existe também a intenção de se insistir na legalização da caça às baleias para fins comerciais e continuar com ações de desmoralização à Sea Shepherd e também Greenpeace, assim como continuar alienando o público.
No mundo dos negócios e da política, e também na vida pessoal de cada um de nós, existem sempre parasitas e em nosso caso, possuímos um parasita que já nos usa como hospedeiro permanente, e ele é o Greenpeace, que se aproveita das nossas estratégias e resultados para justificarem o uso do dinheiro arrecado para “salvar baleias” e pasmem, levantarem ainda mais dinheiro usando nossas conquistas!
Esse negócio é sujo, existe tanta sujeira, guerra de interesses e uso de influência rolando por de baixo dos panos, que o assunto, muitas vezes, sai do foco principal em um passe de mágica e esquecemos que isso se trata das baleias. O assunto aqui é a matança ilegal, cruel e indiscriminada de seres tão majestosos em vias de extinção. Também esquecemos que a nossa sobrevivência está atrelada aos animais não-humanos deste planeta. Será que alguém ousou perguntar a sí mesmo o motivo pelo qual permitimos essa selvageria? Eu vou responder esta questão: porque para nós, o universo foi criado para o nosso bel-prazer e todos os animais foram criados para nos servir, somos o centro do universo. Os animais não humanos não têm ou mal têm algum direito, e eles também não poderiam cobrar seus direitos. Há dois conceitos tão antigos que ainda assombram nossa consciência, mas quando não falamos de humanos, cai na insignificância: os animais são nossos escravos e nós somos racistas especiesistas. Por que somos melhores que nossos irmãos animais não humanos? Seria nossa inteligência, nossa racionalidade que nos coloca a um patamar acima de todos os outros seres viventes? Por que usamos a frase: “eu fui tratado pior que um animal ou um cachorro?” Por que usamos as palavras vaca, galinha, rato, baleia e tantas outras relacionados aos animais não humanos para ofender alguém e por que isso ofende? Se alguém é agressivo por que o chamamos de animal? Por que domesticamos e adestramos cachorros e gatos para nos fazer companhia e os castigamos quando eles se comportam fora dos padrões que estabelecemos? Por que os privamos de liberdade e exigimos que se comportem como humanos? Por que os usamos em circos e rodeios e os encarceramos em zoológicos para entretenimento? E os cães de guarda que trabalham protegendo nossas casas sem nem mesmo saberem que estão trabalhando? Não se trata de escravidão? Não me diga agora que não somos racistas especiesistas e escravocratas.
Por Karina Caris, em nome da Sea Shepherd Brasil
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Passei pra desejar um excelente final de semana.
Carta ao mundo…
Leia a carta de Karina do Sea Sherpherd, que descreve detalhadamente a caça e os processos de assassinato contra as baleias….