Contos

Para escrever é preciso talento, mas existem algumas técnicas de redação e escrita que ajudam a desenvolver a aptidão para que, no momento da criação, a coisa “flua” melhor.

Lembro-me de um professor na universidade que dava aulas com técnicas para desenvolvemos a escrita e redação. Certa vez ele trouxe uma velha bola de capotão e colocou em cima de sua mesa: “no fim da aula quero duas laudas sobre essa bola. Não pode ser uma ficção, não pode ser uma história, mas uma dissertação sobre exatamente ESTA bola e não outra qualquer, o tempo está correndo”.

Mas a técnica que mais deu certo foi a das palavras desconexas. Se você pretende tornar-se um escritor, cronista, criador de contos eróticos ou seja lá o que for, você deve praticar com essa técnica.

Se possível, faça um texto por dia com, pelo menos, 300 palavras. Vou dar um exemplo de como funciona o método:

O primeiro passo é pegar palavra ou frases desconexas para uni-las em um único texto. Quanto maior a diferença do universo das frases e palavras, mais difícil para construir uma história decente.

As frases/palavras que escolhi são:

1 – Penteados passo a passo coloração
2 – Divorcio
3 – 62 anos desde Hiroshima e Nagasaki
4 – Loja de instrumentos musicais
5 – Maisa peidando no programa Silvio Santos
6 – Pearl Jam: Show no Brasil
7 – Arquivos da ditadura publicados na web
8 – Guia de Motéis

Agora vamos ao texto tentar unir essas palavras aí em cima (me ferrei).

Estavam juntos há 15 anos. O casamento foi súbito, fruto de uma paixão adolescente descontrolada e rebelde, em que os dois abriram mão da segurança de seus pais para viver o “amor eterno”.

Bem, parece que o amor havia se acabado por completo. Se estavam juntos há 15, há 2 não trocavam uma palavra sequer, nem bom dia ou boa noite. A situação era insuportável, pareciam dois desconhecidos, o relacionamento degastado primeiro pelas inúmeras brigas que depois dera lugar ao silêncio total apontava apenas uma solução: o divórcio.

Depois de seus afazeres domésticos, ela foi para o quarto e pensou na forma de falar que acabou, ela partiria. Resolveu dar um presente a si mesmo, afinal, ainda era jovem e tinha a vida pela frente (ou 30 anos não seria jovem?). Ela foi ao salão de cabeleireiros e reviu a amiga que não via há 3 anos. Conversou com ela sobre um site que falava sobre uma técnica de penteados passo a passo coloração.

No caminho de volta pra casa passou em frente a loja de instrumentos musicais em que o marido trabalhava, ele não estava lá, já devia ter chegado em casa com seu silêncio insuportável.

Chegando em casa, com os cabelos reformulados pela amiga, viu que seu marido assistia um programa na TV, algo sobre os 62 anos desde Hiroshima e Nagasaki. Resolveu não perturbá-lo e foi direto para a cozinha fazer o prato dele (ela sempre fazia o prato dele no almoço e no jantar). Enquanto preparava ouviu gargalhadas vindo da sala e, esperançosa, foi verificar... será que um milagre havia acontecido? Será que ele havia voltado a ser quem era? Mas chegando lá verificou que apenas estava rindo de uma reprise que mostrava a menina Maisa peidando no programa Silvio Santos.

Ela colocou o prato da mesa e saiu da cozinha para que ele fosse comer, rotina que se repetia pelos anos e que ela estava disposta a por um fim. Subiu as escadas e foi para o quarto, “ele nem reparou que eu mudei meu penteado”, pensou e concluiu “isso não deveria me abalar mais”.

Sentou-se na cama e percebeu que havia sentado em um envelope. Estranhou e abriu o envelope, havia um par de ingressos e no envelope estava escrito “Pearl Jam: Show no Brasil”.

O que ela aquilo? Ela estava sentindo uma mistura de euforia e horror. Ele sabia que ela adorava Pearl Jam e que sempre quis ver uma apresentação da banda, mas e se aqueles ingressos não fossem pra ela? E se fossem para uma amante? Provavelmente eram, se ele não trocava uma só palavra com ela durante tanto tempo, porque compraria ingressos? Lágrimas começaram a correr pelos seus olhos, ela se sentia desprezada, humilhada, a ultima criatura da terra. Chega! É agora que tudo vai acabar! Não sentia tanta tristeza desde que viu os Arquivos da ditadura publicados na web, onde seu avô constava como torturado, mutilado e morto.

Desceu as escadas ofegando, com o rosto vermelho de ódio e choro, entrou na cozinha e ele estava com um buquê de flores na mão, ao lado da geladeira, esperando por ela. “estava esperando por você, temos que terminar com essa situação agora”.

Ela ficou estática e disse, gaguejando, “foi exatamente isso que vim fazer”.

Os dois entraram na internet para procurar um Guia de Motéis.

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