Contra a lógica da submissão: Nem intelectualismo, nem estupidez
19/03/2008 · Imprima este artigo
Na luta contra a dominação e a exploração, cada indivíduo precisa pegar todo instrumento que possa fazer seu, toda arma que possa usar de forma autonoma para atacar esta sociedade e recuperar sua vida. Obviamente, os instrumentos que os indivíduos em particular podem usar neste caminho variam dependendo de suas circunstâncias, desejos, capacidades e aspirações, mas considerando os obstáculos que enfrentamos, é ridículo recusar um arma que possa se usar sem comprometer a autonomia, baseando-se em concepções ideológicas.
O desenvolvimento da civilização em que vivemos com suas instituições de dominação está baseado na divisão do trabalho, o processo pelo qual as atividades necessárias para viver são transformadas em papéis especializados para a reprodução da sociedade. Tal especialização serve para deteriorar a autonomia e reforçar a autoridade devido lhe tomar certos instrumentos -certos aspectos de um indivíduo completo - à grande maioria, e os coloca nas mãos de uns poucos chamados especialistas.
Uma das especializações mais fundamentais é a que criou o papel do intelectual, o especialista no uso da inteligência. Mas o intelectual não está definido tanto pela inteligência como pela educação. Nesta era de capitalismo industrial de alta tecnologia, a classe dominante tem pouco uso para o pleno desenvolvimento e exercício da inteligência. Em seu lugar a classe dominate requer a especialização, a separação do conhecimento em estreitos campos conectados só pela submissão à lógica da ordem dominante-a lógica do lucro e do poder. Desta forma, a “inteligência” do intelectual é uma inteligência deformada e fragmentada com quase nenhuma capacidade de fazer conexões, entender relações ou compreender (sem falar em desafiar) totalidades.
A especialização que cria o intelectual é de fato parte do processo de adormecimento que a ordem dominante impõe aos que são dominados. Para o intelectual, o conhecimento não é a capacidade qualitativa de entender, analisar e raciocinar sobre a própria experiência ou de fazer uso dos esforços de outros para atingir tal entendimento. O conhecimento dos intelectuais está completamente desconectado da sabedoria, que é considerada um estranho anacronismo. Mas sim, é a capacidade de recordar fatos desconexos, bocados de informação, o que veio a ser visto como “conhecimento”. Apenas semelhante degradação do conceito de inteligência poderia permitir à gente falar da possibilidade de “inteligência artificial” em relação a essas unidades de armazenamento e exame contínuo de informação que chamamos computadores.
Se entendemos que o intelectualismo é a degradação da inteligência, então podemos reconhecer que a luta contra o intelectualismo não consiste na rejeição das capacidades da mente, mas sim na rejeição a um especialização deformadora. Historicamente, os movimentos radicais proporcionaram muitos exemplos desta luta na prática. Renzo Novatore era filho de um camponês que apenas frequentou a escola durante seis meses. No entanto estudou as obras de Nietzsche, Stirner, Marx, Hegel, os antigos filósofos, historiadores, poetas, todos os escritores anarquistas e aqueles que participavam nos diversos movimentos artísticos e literários de seu tempo. Foi participante ativo nos debates anarquistas sobre teoria e prática além dos debates nos movimentos artísticos radicais e fez tudo isto num contexto de um intensa e ativa prática insurreccional. Num tom similar, Bartolemeo Vanzetti, que começou trabalhando como aprendiz no começo de sua adolescência, com freqüência durante longas horas, descreve em sua breve autobiografia como passava uma boa parte de suas noites lendo filosofia, história, teoria radical, etc. com o fim de obter estas ferramentas que a classe dominante lhe negava. Foi seu desejo por adquirir os instrumentos da mente o que o levou a sua perspectiva anarquista.
No final do século 19 na Florida, os trabalhadores fabricantes de cigarros obrigaram a seus patrões a contratar leitores para ler-lhes enquanto trabalhavam. Estes leitores liam as obras de Bakunin, Marx e outros teóricos radicais ao trabalhadores, que discutiam depois a leitura. E a princípios do século 20, vagabundos radicais e seus amigos estabeleceriam “colégios vagabundos” onde uma ampla variedade de oradores dava palestras sobre questões sociais, filosofia, teoria e prática revolucionária, inclusive ciência e história, e os vagabundos discutiam sobre isso. Em cada um destes casos vemos a rejeição dos explorados a deixar que lhes fossem retirados os instrumentos da inteligência. E tal como o vejo, esta é precisamente a natureza de uma luta real contra o intelectualismo. Não é uma glorificação da ignorância, senão uma rejeição desafiante a ser despossuido da própria capacidade de aprender, pensar e compreender.
A degradação da inteligência que cria o intelectualismo se corresponde com uma degradação da capacidade de raciocinar que se manifesta no desenvolvimento do racionalismo. O racionalismo é a ideologia que sustenta que o conhecimento só vem da razão. Desta maneira, a razão está separada da experiência, da paixão e portanto da vida. A formulação teórica desta separação pode se remontar a filosofia da Antiga Grécia. Já neste antigo império comercial, os filósofos proclamavam a necessidade de subjugar os desejos e paixões a uma razão fria e desapaixonada. É claro, esta fria razão promovia a moderação - em outras palavras, a aceitação do existente.
Desde esse momento (e provavelmente muito antes desde que existia estados e impérios desenvolvidos na Persia, China e Índia quando Grécia ainda consistia em cidades-estado rivais), o racionalismo desempenhou um papel fundamental em reforçar a dominação. Desde o surgimento da ordem social capitalista, o processo de racionalização tem se espalhando a todas as sociedade por todo o globo. É por tanto compreensível que alguns anarquistas cheguem a opor-se à racionalidade. Mas esta é uma reação simples. Ao examiná-la de perto, fica claro que a racionalização imposta por quem têm o poder é de um tipo específico. É a racionalidade quantitativa da economia, a racionalidade da identidade e da medição, a racionalidade que simultaneamente equipara e atomiza todas as coisas e seres, não reconhecendo mais relações, exceto as de mercado. E assim como o intelectualismo é uma deformação da inteligência, esta racionalidade quantitativa é uma deformação da razão, porque é razão separada da vida, uma razão baseada na Reificação.
Enquanto aqueles que dominam impõem esta racionalidade deformada nas relações sociais, promovem a irracionalidade entre aqueles a quem exploram. Nos jornais e revistas, na televisão, nos videogames, nos filmes… através das midias de massa, podemos ver como a religião, a supertição, a crença no que não pode ser provado e a esperança em, ou o temor, no chamado ser sobrenatural se impõem e o ceticismo é tratado como uma rejeição fria e desapaixonado do maravilhoso. É de beneficio a classe dominante que aqueles que são explorados sejam ignorantes, com uma limitada e decrescente capacidade de se comunicar uns com os outros sobre qualquer coisa significativa ou de analisar sua situação, as relações sociais nas que se encontram e os acontecimentos que ocorrem no mundo.
O processo de dormencia afeta à memória, a linguagem e a capacidade para entender as relações entre pessoas, coisas e acontecimentos num nível profundo, e este processo penetra também naquelas áreas consideradas intelectuais. A incapacidade dos teóricos pós-modernos de compreender toda a totalidade pode se localizar facilmente nesta deformação da inteligência. Não é suficiente se opor a racionalidade deformada imposta por esta sociedade; devemos também nos opor a dormencia e a irracionalidade impostas pela classe dominante sobre o resto de nós. Esta luta requer a reapropriação de nossa capacidade de pensar, de raciocinar, de analisar nossas circunstâncias e comunicar suas complexidades. Também requer que integremos esta capacidade na totalidade de nossas vidas, nossas paixões, nossos desejos e nossos sonhos. Os filósofos da antiga Grécia mentiam. E os ideólogos que produzem as idéias que mantêm a dominação e a exploração continuaram contando a mesma mentira: que o contrário a inteligência é a paixão. Esta mentira desempenhou um papel essencial na manutenção da dominação. Criou uma inteligência deformada que depende da racionalidade econômica, quantitativa, e reduziu a capacidade da maioria dos explorados e excluídos de entender sua condição e lutar inteligentemente contra ela. Mas, de fato, o oposto a paixão não é a inteligência, mas sim a indiferença, e o oposto da inteligencia não é a paixão, senão a estupidez.
Dado que quero sinceramente acabar com toda dominação e exploração e começar a abrir as possibilidades para criar um mundo onde não tenha nem explorados, nem exploradores, nem escravos, nem amos, escolho aproveitar toda minha inteligência apaixonadamente, usando cada arma mental -junto com as armas físicas- para atacar a presente ordem social. Não peço desculpas por isto, nem me dirigirei a aqueles que por preguiça ou pela concepção ideológica dos limites intelectuais das classes exploradas recusam usar sua inteligência. Não é só um projeto anarquista revolucionário o que está em jogo nesta luta; é minha realização como indivíduo e a plenitude da vida que desejo.
Original por Wolfi Landstreicher
Tradução: Erva daninha - Iniciativa anarquista anti-civilização












Oi Rodrigão!
Peço permissão para divulgar uma aberração no mundo das artes, onde um suposto artista plástico, GUILLERMO VARGAS HABACUC, usou, na América Central, um cão de rua para fazer parte de sua exposição. O cão veio a morrer e o pior é que a dita Bienal convidou este cruel ser humano que se diz artista a participar de novo (com outro cão) na ‘Bienal’ de 2008.
Por favor, assinem este abaixo-assinado online para que evitemos esta crueldade que este cara quer fazer “em nome da ARTE!”
Obrigada a todos.
http://palavrassussurradas.wordpress.com/2008/04/03/guillermo-vargas-habacuc-crueldade-contra-animais/
Dai,
Você tem toda a permissão do mundo! E digo mais: porque não aceita meu convite, vira uma colaboradora do Bravus e escreve um post sobre isso?
Beijão!
Aceito o convite com muito prazer. Mando texto em breve.
Beijo.