Dia de chuva, como em uma canção soul

19/05/2008 · Imprima este artigo

Ouve a voz que sopra em teu ouvido, escolha a musica certa e as portas se abrirão para uma experiência que transcende o prazer de ouvir musica e nos leva para um patamar espiritual.
A voz, é de uma canção Soul melódica e bem ornamentada e seu interprete diz claramente “a minha banda não tocou e você já vai?”

Quantas vezes esperamos o ultimo ônibus para acenar com a mão ou o ultimo segundo para dar um salto que em nosso mais intimo nos faz crer que é maior que nossas pernas?
Ouve a voz que sopra em teu ouvido, pois o destino lhe espreita na próxima esquina tão desarmado quanto você ao ler esse texto de final incerto.

Ela tinha um nome de Anjo e ele de Colibri, pássaro místico que paira no ar!
Começamos pela historia dele, um moleque travesso do interior, vivia no meio dos brejos, entre matas e Sábias. Somente a chuva prendia-o em casa e mesmo assim a muito custo. Inicio dos anos oitenta em um vilarejo de terra vermelha e rua de chão batido, a chuva conseguia a proeza de deixá-lo tristes por alguns segundos pela ausência do Sol, mas ao ver e enxurrada cobrir aquele chão batido transformando pequenas ladeiras em verdadeiras cachoeiras que alimentavam a sua imaginação, moldando na lama o seu destino. A alegria voltava em seu olhar.

Aquele dia de janeiro de 1982, a chuva e fortes trovoadas amedrontou-o, Colibri pegou seus alpargatas azuis e foi para sua casa e pela primeira vez soube o significado da palavra tédio. Sem nada para fazer avistou sobre a estante uma pequena vitrola monofônica que aguçou sua curiosidade, equipamento de fácil manuseio com apenas um botão para ligar e aumentar o volume, algo nada comparado aos atuais System de cinco canais Dolby!
Colibri nunca esqueceu da voz e a musica ecoada daquela sonatinha que dizia “Você não sente não vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, Que uma nova mudança em breve vai acontecer, O que há algum tempo era novo e jovem, Hoje é antigo E precisamos todos rejuvenescer…..” Era a voz de Elis Regina cantando a musica (Velha roupa colorida) aquele refrão ficou martelando em sua mente como se estivesse dizendo algo para ele!

A musica falava de rejuvenescimento, mas para Colibri foi um amadurecimento musical.
Anos mais tarde, cruzou em seu destino com Angel, uma jovem de 16 anos que estava descobrindo a vida, questionava a tudo e a todos, e como qualquer adolescente exercia sobre seus pais toda sua ira e rebeldia.

Época de sentimentos antagônicos, crises existenciais, descobertas do sexo, paixão ciúmes e aceitação em seu grupo, em fim tudo ao mesmo tempo agora!

Naquela noite Angel estava um pouco estranha, não brigou com seus pais nem com seu irmão caçula, não fez anotações em seu diário e nem ficou ao telefone, apenas colocou no aparelho de som um CD de Jimmy Hendricks que uma nova e estranha amiga tinha emprestado e ficou por horas ouvindo em seu quarto escuro a musica Hey Joe, mas ela estava fora de si e descobriu naquela noite o significado de curtir um barato!

Sua mãe preocupada inutilmente batia na porta, mas Angel se sentindo uma Princesa Alada com asas multicoloridas resolveu voar, pulou da janela , mas não voou!
passou por seus olhos toda sua curta vida como em um Flash Back em preto e branco
lembrou das noites de natal, do abraço do pai, a vergonha da perda dos dentes de leite,
das Histórias de sua avó e do colo de sua mãe que nada podia fazer naquele momento!

Foi assim que Colibri conheceu Angel, que caiu do céu diante de teus olhos em uma noite fria do mês de julho.

Texto por Davi Santana,
homem que vê o invisível e pensa o impensável.

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