É dia de Feira :: Bravus Gonzo
13/06/2008 · Imprima este artigo
Quando você entra nas imediações de uma Feira Livre, o primeiro sentido que grita é o olfato. O ambiente está dominado por aromas cítricos, doces, fortes, suaves que se misturam num degrade característico de uma das mais fortes tradições culturais da humanidade: o mercado – atendido aqui pelo nome de Feira Livre, o Bravus.Net foi até uma Feira de Sexta de São Paulo para desenvolver mais uma Gonzo Reportagem e descobriu faces ocultas e heróicos personagens da hora da xepa no clássico mercado de rua, acompanhe:
A definição de mercado é clara: trata-se do processo pelo qual as pessoas (físicas ou jurídicas) procedem à troca de bens por uma unidade monetária ou por outros bens. Os mercados tendem a equilibrar-se pela lei da oferta e da procura.
Mas ninguém ali está interessado em definições mercadológicas e teorias administrativas, O que manda na feira é a intuição e o aprendizado através das gerações, técnicas e procedimentos passados de pai para filho (ou aprendiz).
O dia caia quente na hora da xepa, termo usado para designar o horário do fim da feira, quando os produtos passam por uma queima de estoque, “No começo da feira, logo de manhã, os produtos estão fresquinhos e bonitos, então tem o preço normal de mercado, mas no fim os produtos já mais estão escolhidos, por isso a gente vende mais barato”, disse Cleyton, ajudante da barraca de laranja.
Mas nem todos trabalham vendendo produtos na feira. Há os ajudantes de sacoleira, geralmente garotos mais humildes que oferecem seus serviços as senhoras que passam com sua sacola, para carregarem até sua casa. Na ponta da feira havia cinco “Os mais velhos pegam todo o serviço e eu fico com o que sobra”, queixa-se Lucas, de 8 anos, já na labuta. Vida dura e sem perspectivas, mas ele garante que estuda e vai bem na escola.
Existem ainda os olheiros, garotos pagos pelas barracas que não possuem alvará de funcionamento. Eles também ficam nas saídas da feira, observando se um fiscal ou o rapa não aparece, e geralmente pegam serviços com as sacoleiras também, mas sempre fica um de vigília. Durante nossa estadia na feira, houve um fuzuê quando um garoto apareceu dizendo para a barraca de CDs piratas que havia policia na entrada da feira. Em menos de dois minutos, os três garotos que tomavam conta da barraca desmontaram tudo e esconderam por baixo da lona das barracas vizinhas, Aqui é assim, um ajuda o outro, disse o feirante da barraca de laranjas, rindo da situação.
E por falar nos feirantes, eles são uma atração a parte. A propaganda na feira é feita no gogó e vale tudo para seduzir o cliente, desde o clássico “Mulher bonita não paga mas também não leva” até promessas e cantadas. O repertório é vasto.
Mais educada, a barraca da dona Fátima vende legumes e frutas e até alguns industrializados como salgadinhos. Ela está a 40 anos no ramo, Começou pequena, “vendíamos as verduras que meu pai plantava, mas hoje eu pego os produtos na CEAGESP e vendo aqui na feira”. Fátima, que tem descendência oriental gosta do que faz “Acho gostoso trabalhar na feira”, ao seu lado está Rafael, jovem que também vende legumes.

As barracas de pastel estão sempre lotadas, muitos vão a feira só para comer um pastel e, seduzidos pelo cheiro, acabam levando uma coisinha ou outra, diz seu Jair, 70 anos de idade, que vende cheirosos temperos ao lado da barraca de pastel.
O horário mais cheio da Feira é, sem dúvida, a hora da xepa. É quando as donas de casa deixam o preparo do almoço rapidinho para aproveitar as ofertas do fim da feira, que acontece por volta das 14 horas.
Porém, o fim do expediente às 14 horas não significa trabalho em meio período. Muitos feirantes chegam para montar suas barracas antes das 5 da manhã e muitos outros ainda têm expediente em outras feiras – noturnas – ou completam o dia com outra atividade profissional. Também é lenda a história que diz que feirante trabalha só um dia por semana. Em São Paulo, existem muitas feiras em todas as regiões em todos os dias da semana, “é um dia aqui, outro acolá”, explica seu Jair.
Mas a feira não absorve as crises mercadológicas de forma tão drástica quanto os estabelecimentos comerciais. Não corre o risco de falir e fechar, pois cada profissional é autônomo e independente do que está ao seu lado, conhece seus fregueses mais assíduos pessoalmente e sempre existe a possibilidade de negociar, garantindo que os alimentos cheguem à mesa do trabalhador médio. Pelo visto – e felizmente – a feira não vai deixar de ser uma tradição presente em nossas vidas tão cedo. Vida Longa à Feira!










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