É Virose...
Você já viu circular nas especializações ou competências médicas capacitações como a de médium ou telepatia? Eu nunca vi. Mas nos hospitais públicos e particulares conveniados a diversos planos de saúde que atendem a população de São Paulo, o que mais encontramos são “doutores” com complexo de Mãe Dináh.
Seria comigo se o assunto não fosse tão sério, mas ir ao hospital em busca de ajuda médica hoje é desnecessário, pois sabemos que – há não ser que você chegue lá sem a sua cabeça – sairá com um diagnóstico de “virose” e uma receita nas mãos. Simples assim. Sem exame algum e muitas vezes sem o médico sequer olhar para a sua cara.
Eu não sei se isso é reflexo do governo e do pouco caso com a saúde, se é frustração em estudar tantos anos para, no final acabar cuidando da saúde de pobre, ou se é falta de capacidade profissional de médicos e residentes. Sei que existem muitos bons médicos por aí. Mas eles estão cada vez mais difíceis de se encontrar, ou inacessíveis.
Eu estou escrevendo este artigo não para atacar a classe médica, mas para defendê-la. Uma profissão tão nobre não pode acabar desmoralizada por péssimos profissionais que não querem fazer seu trabalho direito. Qualquer pessoa com um mínimo de observação sabe que não é possível adivinhar qual o problema com determinado paciente apenas ao ouvir certos sintomas, afinal não é preciso ser profissional da saúde para saber que diversas patologias apresentam os mesmos sinais e o exame é básico para o processo investigativo que leva ao diagnóstico correto. É um direito do cidadão que paga seus impostos e dos “clientes” que todos os meses não falham com a mensalidade absurdamente cara cobrada pelos planos de saúde.
Só para ilustrar o que quero dizer, recentemente minha noiva apresentou uma dor na região da virilha. Não havia febre, não havia dor ao pisar. Apenas um dor aguda na região da virilha.
Fomos ao primeiro médico, no AMA, que aconselhou ela procurar um Hospital melhor preparado, mas que aquilo poderia ser uma virose. Não fez exame. Passou remédio para dor.
Fomos ao segundo médico, no Cruz Azul, pelo plano de saúde. A primeira médica, aparentemente formada também como médium, a diagnosticou sem qualquer exame como “dor do meio”, algo relacionado à ovulação. Mais remédio para dor.
No dia seguinte o quadro parecia pior ainda. Voltamos ao Cruz Azul e um terceiro médico resolveu pedir alguns exames. Nada constou no sangue, mas ele pediu uma ultrasonografia, que acusou uma apendicite.
Ou seja, levamos cerca de quatro dias circulando entre médicos que diagnosticavam o que dava na cabeça, sem exames, sem nenhum compromisso com a função de médico. Como todos sabem, a cirurgia para retirar a apêndice é relativamente simples, porém, se a inflamação “estoura”, o quadro fica gravíssimo. Ela passou por um risco de vida desnecessário, assim como milhares de brasileiros todos os dias.
Fica apenas a dúvida: Qual a dificuldade em pedir um exame para auxiliar na investigação? Afinal, ninguém espera que o médico seja um Deus... o exame é uma das ferramentas mais importantes de um médico. Você já viu um marceneiro construir uma estante sem martelo e chave de fenda? Alguém já viu um advogado defender um cliente sem a constituição? Alguém já viu um professor lecionar sem um livro?



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