Especial Curitiba - Carne, Noivas e o adeus

1/04/2008 · Imprima este artigo

Como Carne

O espetáculo atrasou cerca de 15’ já que parte do público que lotaria o Auditório Glauco Flores de Sá Brito, popularmente conhecido como Mini-Guaíra ainda encontrava-se na bilheteria ou porque vinha de outro espetáculo na maratona do festival ou porque acabara de tomar café, no caso daqueles que haviam curtido a badalada noite curitibana anterior. Enquanto isso, para entrar no auditório algumas pessoas brincavam sarcasticamente e sugeriam que os atrasadinhos deveriam ser devorados pelo protagonista carniceiro.

José Ramos era o nome do macabro serial killer que poderia ter inspirado Jack, o estripador e mesmo Dr. Hannibal Lecter na ficção. Mas o fato é que o Sr. JR – o açougueiro – era benquisto entre a alta sociedade porto-alegrense do século XIX devido ao seu notável talento em transformar piteizinhos, como a narradora da estória em iguarias suculentas, ou seja, a lingüiça feita com ingredientes especiais – suas vítimas.

Como Carne pode ser considerada mais uma representação de uma arte que imita a vida, porém a montagem se estende além da competente produção artística e traz à superfície do cotidiano, discussões que os saberes acadêmico, científico e filosófico ainda não respondem por completo. Entre elas a defesa do engenhoso homicida embasada sob um olhar naturalista e comentada por ninguém menos que Charles Darwin num de seus artigos. Dessa maneira não só a sociedade é posta em xeque, mas também a vertente cívica do ser humano, pois nos devoramos uns aos outros todos os dias em nossas relações interpessoais, em nossos empregos, em nossa cultura ocidental. Somos todos antropófagos.

Espetáculo: Como Carne (Festival de Curitiba de 20/03/2008 a 30/03/2008)
Onde? Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Mini-Guaíra)

Rua Amintas de Barros, s/nº - Curitiba / PR.
Cia.: Zerdax Companhi de Teatro & Grupo Teatral Sem Horas e Sem Horrores

Direção: Andrei Moscheto

Quando? 21/03 as 12:00h. | 22/03 as 15:00h. | 23/03 as 12:00h. |24/03 as 18:00h.

Quanto: R$ 16 pilas | Estudantes pagam ½ entrada.
Duração: 55 minutos

+ Detalhes: luizbrambila@ig.com.br

As Noivas de Nelson

Até pouco tempo atrás toda mulher sonhava em casar-se. Para os homens o objetivo de vida era ter um emprego estável e conhecer uma mulher de família com quem pudesse constituir a sua própria. Não que nos tempos de hoje não sejam assim, mas era bem mais evidente nos tempos de nossos avós. Tenha você 15 ou 51 anos.

A montagem As Noivas de Nelson trata muito bem deste assunto e de uma forma em que potencializa o fino humor contido nas obras rodriguianas. O flerte, o casamento, a família, a noite de núpcias, vida e morte são os ingredientes que estampam o riso no rosto da platéia. Estes elementos também ligam os cinco atos que compõem a peça. Entre elas, recorte de gravações com a voz do próprio dramaturgo.

Os pombinhos que se preparam para o sacramento matrimonial e que forem assistir ao espetáculo poderão se divertir com situações como a conquista da família da pessoa amada. Receber uma mostra de como o amor pode ser cego e ao contrário do que dizem da justiça, não enxerga no escuro. Da fundamental importância da primeira noite pós-casamento para o futuro da vida conjugal. Da máxima que nos dias de hoje é conhecida por: Quem não dá assistência, abre concorrência. De onde surgiu a implicância com a sogra. Para não falar que ser criado num arem não vale de muita coisa se este for composto por sua mãe e irmãs.

Quem esteve no Festival de Curitiba na última semana teve a oportunidade de conferir este espetáculo em primeira mão, mas se você é de São Paulo e não foi até lá pode se divertir e assistir ao espetáculo no Centro Cultural São Paulo, de acordo com as informações abaixo. Vale a pena.

Espetáculo: As Noivas de Nelson (De 28/3/2008 até 4/5/2008)
Onde? Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho

Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso – São Paulo / SP | www.centrocultural.sp.gov.br | ccsp@prefeitura.sp.gov.br

Cia.: Cia. Paulista de Artes

Direção: Marco Antonio Braz

Texto: Nelson Rodrigues

Quando? sextas e sábados, às 21h | domingos às 20h

Quanto: R$ 15 pilas | Estudantes pagam ½ entrada | Preço Popular p/ 4/4/2008: R$ 2 pilas

Duração: 75 minutos

Classificação: 12 anos

+ Detalhes: marceloperoni@uol.com.br

Finalizando…

Festival de Curitiba

Domingo foi nosso último dia em Curitiba. Acordamos já com a sensação de despedida no peito, fiz questão de tomar o delicioso café do hostel, que é filiado à rede HI (Hostel International), não pude deixar de fazer minha carteirinha de alberguista e agora o Brasil é meu quintal.

Feita as despedidas, saímos pelas ruas de Curitiba pensando em almoçar no centro da cidade. Acabamos comendo no Casa di Frango, recomendável antro da culinária curitibana que serve, além de todo tipo de preparo do galináceo, massas fritas e um rodízio de carnes imperdível. Na negativa da idéia de ter de partir, resolvemos fazer uma última visita ao centro, onde nos deparamos com uma Feira (não sabíamos que ela ocorria) de artes que foi a última grande e agradável surpresa da cidade para com os Bravus que ali se encontravam. Quando tiver oportunidade, não deixe de visitar a banca de mágicas da feira e levar alguns truques para casa, é imperdível.

Na feira ainda encontramos o cantor Plá, que como um Ventania do Sul, lidera a juventude anárquica e desapegada num rock delirante tocado ao vivo, para todos e em plena rua. Saímos de lá com nosso CD.

Compradas as últimas muambas, fomos ao Guairinha dizer um tchau para os Satiros, parceiros do Bravus que ali se preparavam para sua grande apresentação.

Não há muito o que se dizer… realmente pudemos comprovar que tudo o que dizem sobre Curitiba ser uma cidade modelo que respira cultura, com pessoas educadas e receptivas, é realmente verdade.

Vivemos bons momentos, conhecemos pessoas de todos os tipos que fizeram, direta ou indiretamente, parte dessa primeira Bravus Trip.

Podemos agora dizer, cheios de orgulho, que Curitiba é Bravus!

Obrigado Curitiba! Até a próxima Bravus Trip!

PS: Todas as fotos deste especial Bravus Trip estão no flickr.


Abraço e até o próximo!
Por Vini Atalaia

O coelhinho azul com bolinhas amarelas anunciava o domingo de páscoa. A extensão da 13ª hora de trabalho misturada à diversão na região sul do país havia chegado ao fim. Tínhamos que retornar à paulicéia desvairada antes mesmo do encerramento do festival.

Bom… não daria mesmo tempo de ver todos os espetáculos que eu gostaria. Só na minha lista ficaram faltando vários que não consegui assistir seja por causa da data, clima, logística, falta de tempo, ou pelo simples fato de eu ser apenas 1. Por outro lado, foi bom reencontrar por aquelas bandas Os Satyros, a Cia Independente, a Cia Vigor Mortis, entre outros.

Se concordarmos que fazer arte exige talento e dedicação, então o artista pode ser considerado um batalhador. Partindo daí, o festival se apresenta também como um convite para se aproximar deste universo. É claro que teve seus problemas, muitos por sinal. Mas, espero que se transformem em desafios a serem superados pela próxima edição.

Também houve peças ruins. Eu mesmo presenciei a pelo menos duas e senti perder meu parco tempo. Porém, isto também faz parte do jogo. Pagar pra ver. Mesmo que seja ruim vale pela experiência e pela “tiração de sarro” – ou vocês acham que eu não gargalhei quando o Denis chegou no bar com aquela cara frustrada após uma das apresentações. – Só para registrar, não escrevi sobre essas peças. Se quiserem paguem para vê-las (rs…).

Lá, muitos dos artistas que encontramos exercem outras atividades remuneradas como fonte de renda que não seu trabalho considerado ideal. Lágrimas escorrem por rostos cansados e felizes. Sorrisos resultam da arte – exclusividade dos seres humanos. Todos fazendo o que lhes dá prazer. Tentando traduzir para o mundo dos sentidos os conceitos nascidos no mundo das idéias. E para fechar este Especial Festival de Curitiba um achado em meio à dominical feirinha do Largo da Ordem: O poema Sonhos de Paulo Matos do Grupo Epopéia. Abraço e até o próximo!

Sonhos

Há os que fazem da vida um presente
E os que prezam o que fazem da vida
Uns se dão de presente a guarida
Outros: sonhos. Vivem o presente.

Nenhum dos dois tá errado
Basta tentar entender
Uns comem sonhos… de creme
Outros… os sonhos lhes dão de comer.

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