Hora da Bóia

10/06/2008 · Imprima este artigo

Uma discussão na blogosfera sobre caridade e filantropia me deixou com uma pulga atrás da orelha. Afinal, a ação feita para ajudar pessoas necessitadas pode ser genuína e sincera, sem uma intenção oculta e secundária em benefício próprio e autopromoção ou tudo não passa de charlatanismo oportunista?

Foi num sábado ensolarado, fotografando por aí que me deparei com a oportunidade de viver uma experiência que me traria parâmetros para compor uma posição: o GEA. Conheci o trabalho, conversei com os voluntários e combinei retornar na semana seguinte para desenvolver um trabalho. O resultado você confere abaixo.

Dezenas de pessoas em situação de rua se concentravam na Paz – Praça da Paz – pequeno recanto verde rodeado por estabelecimentos nordestinos e japoneses no bairro de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Eles estavam à espera dos voluntários do Grupo Esperança e Amor (GEA), que todos os sábados promovem um almoço beneficente no local.

Entro no meio deles e não vejo nem sombra de tristeza, os moradores de rua chegam cumprimentando-se como se estivessem em uma festa, tirando sarro um do time do outro, juntando-se em pequenas rodinhas espalhadas por toda a praça, colocando em dia assuntos de toda natureza. Estranham minha presença mas são acolhedores, não me conheciam mas me cumprimentaram e me trataram como um igual. Ali, ninguém é superior a ninguém e não há motivo para hostilidades.

Alguém me oferece um cigarro, não obrigado. Alguém me pede um cigarro, não fumo, obrigado. Alguém estende a mão, “Olá, sou Denis, prazer, eles estão demorando hoje né?”, pergunto. “Sim, mas nunca falham, logo estão aí”.

Todos estão sentados na mureta da praça, em uma fila que cresce. Em sua maioria são senhores de idade, muitos bem vestidos, mas também há jovens, mulheres e crianças. Perdidos entre o descaso social e o fantasma da falta de informação. Ali, eles receberão mais do que uma refeição semanal: encontrarão amigos prontos para resgatá-los das margens do Estado.

Perto das 13h30 chega o primeiro grupo de voluntários do GEA, eles estão ali para contar quantos apareceram hoje. Todos se conhece um a um e a receptividade é calorosa. Se abraçam como a velhos amigos. Finalmente um voluntário suspira aliviado. “Hoje compareceram muitos moradores de rua, mais do que a média. Felizmente fizemos muitos marmitex e vai dar”.

Logo em seguida surge o carro do GEA com o porta-malas adaptado em um isopor gigante cheio de “quentinhas”. Milton, um homem alto, de gestos fortes e voz grave, da um boa tarde geral. É ele quem organiza tudo ali. Em seguida, chama a atenção de todos na praça e, com autoridade, agradece a presença de todos. Hoje o presidente do GEA, Freitas, está presente e cumprimenta a todos com simpatia. Milton é vice presidente, ele me puxa ao seu lado e manda:

Este aqui é o jornalista Denis, amigo nosso que vai fazer a divulgação do GEA, vamos recebê-lo com uma salva de palmas”.

Fico sem jeito e tiro meu chapéu em sinal de respeito e agradecimento aqueles bravus homens que vencem a mais dura das lutas todos os dias, me aplaudindo sem que eu entenda como posso receber um tributo de pessoas mais fortes do que eu, umas das maiores vítimas da sociedade subvivendo pelos mais variados motivos.

Não é só pela bebida ou drogas que as pessoas acabam na rua. Muitas sofrem decepções e traumas desconcertantes, a exemplo de Antônio Conselheiro, que desmascaram o teatro encenado por nós todos os dias. Não conseguem mais ver sentido numa vida sem sentido como a nossa, preferem a simplicidade e verdade das ruas, por mais dura que seja.

Muitos saem de casa por vergonha da família, por não conseguirem trabalho, envergonhados, ficam na rua e não voltam sem uma colocação no mercado. Parece um absurdo pensar assim no conforto de nossos lares, com nossas garantias e proteções, mas é preciso conhecer a realidade destes pais de família, desesperados sem conseguir levar nada para casa, dia após dia, apenas sobrevivendo de colaborações de vizinhos e família, decide ajudar com uma boca a menos para comer em casa: a sua. Vivendo na rua esperando pelo milagre que nunca chega do céu, a não ser pelas mãos de pessoas como o GEA, que tem o almoço como um atrativo para a ONG.

Alimentar ali não é a prioridade, mas ajudar. “As pessoas vem atrás da comida, mas encontram com o GEA a possibilidade de uma reabilitação”, diz Milton. “Somos uma organização sem barreiras de religião, sexo, cor ou idade. Temos espíritas, evangélicos e católicos trabalhando lado a lado para melhorar a vida do próximo, conseguir uma inserção ou qualquer coisa, não temos condições de dar uma casa, um emprego, um tratamento ou qualquer coisa, mas podemos ir atrás, falar com pessoas, telefonar, tentar ajudar como for possível, desde que a pessoa deseje”.

O problema é que nem todo mundo deseja ser resgatado. Muitos não tem força para deixar a bebida de lado e voltar para a família, é algo que depende exclusivamente da vontade da pessoa, mesmo que aconteça uma recaída, a pessoa precisa desejar mudar e isso as vezes leva tempo, diz uma voluntária.

A distribuição das quentinhas começa sem bagunça, todos permanecem sentados e são servidos pelos voluntários. Hoje temos arroz, feijão, salsicha com batata e banana. Também tem suco e um voluntário fica exclusivamente responsável pela pimentinha. “Se não tiver essa bem ardida aqui eles reclamam, não pode faltar”.

Em pouco tempo, todos os moradores receberam sua refeição e comem com a soberba de reis. Aliás, nem todos são moradores de rua, alguns tem sua casinha, mas vem para ver amigos e conversar. São colaboradores, claro, como dona Lazara. Senhora simples que contribuiu com arroz, mas faz questão de sentar na praça para comer com os amigos. “Moro na favela e lá criei sozinha 5 filhos. Fui bom exemplo para eles e hoje uma filha mora na Itália e um filho tem uma chácara do lado da chácara do Jair Rodrigues“, conta orgulhosa, mas sem abandonar a favela. “Não vou mentir para você, não pago nem água e nem luz, mas vivo bem na simplicidade”, confessa.

Lazara

Dona Lazara, voluntária, também não perde uma boquinha

Outro que conversou com o Bravus foi Belarmino Viena Alves. Homem sério e religioso que vive na rua por falta de oportunidades mas está se recuperando. “No que eu puder ajudar, em nome de Deus eu venho e faço de bom grado. Eu estava desandado nessa vida, mas meu Pai me ajudou e assim eu sigo”.

Belarmino

 Seu Belarmino, rumo à reabilitação (em nome de Deus)

As marcas da dureza da vida está presente no rosto de cada um. Lá não se pensa em filantropia, caridade, voluntariado autopromoção ou qualquer coisa do tipo. Há uma realidade presente que nos leva a um pensamento, sentimento e movimento que só quando presentes é possível sentir: há um trabalho que deve, então fazemos. Apenas isso. Todas as filosofias e condições psicologias na origem do ego caem por terra durante o ato. Tudo isso perde o sentido e só é possível entender quando vivemos esta ação. Eu aconselho cada blogueiro desse mundo experimentar para poder falar a respeito.

Outros braços do GEA

O almoço aos sábados não é o único ato promovido pelo GEA. Nascido no dia 1º de abril de 1999, o Grupo Esperança e Amor foi idéia de quatro casais de amigos que queriam apenas ajudar e hoje conta com cerca de 60 voluntários.

O GEA também trabalha com a doação de fraldas geriátricas para pessoas que precisam. “São 15 pessoas assistidas por esse nosso programa e o custo é alto, pois a matéria prime é cotada em dólar. Além disso, ajudamos muitas famílias com cestas básicas”, explica Milton.

A necessidade de dinheiro para dar continuidade aos programas é o que motiva o GEA a organizar a “Grande Feijoada do Grupo Esperança e Amor” que chega neste sábado à sua 11ª edição. Trata-se de uma super feijoada que está ganhando fama na região. Vendida para a comunidade (e aprovada) a feijoada é caprichada e tem a verba totalmente destinada a manutenção dos programas do GEA.

GEA

Como colaborar?

Quem quiser contribuir com o desenvolvimento do trabalho do GEA, pode fazer sua doação na sede que fica na Rua Pedro Soares de Andrade, 94 – Fundos.

Ou direto na conta do Banco Banespa:
Agencia: 0083
Conta: 130046407

Para mais informações o telefone do GEA é (11) 6584.4666.
Na internet: http://www.grupogea.org.br/

Busca

Comentários

8 Comentários para “Hora da Bóia”

  1. Marta Belinski on junho 11th, 2008 16:30

    Gostaria de agradecer os valiosos comentários da matéria e pedir a todos que participem dos trabalhos deste grupo. Sou voluntária ha 5 anos e sei das dificuldades que encontramos para dar continuidade ao trabalho, porém, a cada sábado nos alegramos com surpresas agradáveis como esta, a publicação deste artigo tão positivo e verdadeiro, que vem fortalecer o trabalho do grupo e motivar nossos corações. Abraços fraternos!

  2. Roberto Morales on junho 11th, 2008 19:03

    Queridos amigos da Bravus.net. Sou colaborador do Grupo GEA há algum tempo. Fiquei muito feliz com a divulgação feita por vocês do trabalho voluntário realizado por nosso grupo. O amigo Denis Rodrigues conseguiu captar com imensa felicidade o sentido do nosso trabalho e a importância dele para nós trabalhadores voluntários e para todos aqueles que são assistidos. Gostaria de ressaltar que o GEA não recebe qualquer tipo de apoio dos poderes públicos, realizando o trabalho por intermédio de seus próprios voluntários que sempre custearam todas as ações do GEA. Parabéns a todos da bravus.net. Roberto Morales

  3. Milton Luiz on junho 11th, 2008 19:49

    Nós do Grupo Esperança e Amor – GEA ficamos maravilhados com a presença do Jornalista Denis em nossos trabalhos e pelo belissimo artigo escrito, estamos sempre a disposição e assim que possivel esperamos receber uma visita de vcs em nossa sede que fica na Rua Pedro Soares de Andrade n° 94 fds São Miguel Paulista – em frente ao INSS de São Miguel todos os sabados a partir das 8:00 h !
    Forte Abraço a todos da Bravus
    Milton Luiz

    Nosso lema ” Voluntários unidos para fazer algo a quem da vida nada tem! “

  4. Luis Fernando Alves... FANFA e LEFELE on junho 11th, 2008 21:33

    Bom…Eu não tenho palavras pra expressar o que estou sentindo, pois, já perdi os sentidos… este texto simplesmente me deixou sem ação… sou praticamente o caçula do grupo e nunca tinha me emocionado tanto quanto lendo este texto… “Gratificante” talvés seja a palavra que se possa utilizar ao fazer parte dessa história. A foto acima em que se encontra o fragmento dos coloboradores do grupo poderia ser dez vezes maior, mesmo assim, não caberia todos que fazem parte desta história. E só temos a agradecer TODOS que diretamente ou indiretamente ajudam aos nosso irmãos na praça, às familia que necessitam de alimentos e aos acamados que precisam de fraudas, mas que, não estão nas fotos… e também ao Denis que também contribuiu grandemente ao grupo…

    Abraços Fraternos

  5. Denis Rodrigues on junho 12th, 2008 00:26

    Obrigado a todos do GEA. Este trabalho foi muito especial para mim e espero dar continuidade.

    Grande abraço para todos.

  6. Sinval Estevam Gregorio on junho 12th, 2008 10:13

    Sou colaborador do grupo e fiquei com a voz embargada e emocionado ao ler a materia. Quem atua no GEA conhece bem o sentido das palavras filantropia, caridade e união. É nesta unidade e com estes propósitos que trabalhamos para ajudar o próximo. Esta materia nos estimula e encoraja a cada vez mais abraçar este trabalho com dedicação e perseverança . Parabéns pela materia e aos “bravus” cidadãos.

  7. Marco Nunes on junho 12th, 2008 17:59

    Aos Irmãos do GEA;

    Tive o imenso prazer de participar deste trabalho, lembro-me como se fosse hoje que levantei-me as 05:00 da manhã para doar apenas uma infima parte de mim àqueles que nada tem, e olha que vim de longe, Cotia-SP, porém acabei por descobrir que na realidade não são as pessoas do GEA ou eu, ou qualquer voluntário que damos nada! Nós é que na verdade recebemos.
    Dizemos que ajudamos a quem nada tem, porém são nessas horas que podemos vislumbrar a magnificência do Criador, recebemos muito, mas muito mais do que damos, e assim o círculo se completa, pois damos matéria a quem não a tem e recebemos…bençãos!!!!!

  8. Annabel Souza on junho 17th, 2008 19:25

    Denis,

    PARABÉNS pela matéria, realmente é emociante ler da forma como você colocou o nosso trabalho. Eu conheço este grupo desde que ele era apenas uma idéia e sei quantos apuros todos os voluntários passaram para chegar onde estamos hoje. Sabemos que temos muito o que fazer por eles, mas nem sempre é possível, pois como está no texto, eles têm que querer mudar e sair daquela condição, entretanto no que podemos coloborar para que eles tenham força para crescer estamos sempre fazendo. Por isso o nosso lema é: FRATERNIDADE!
    Aproveito o espaço para convidar à todos a conhecer o nosso trabalho, pois chegar ao GEA no sábado de manhã e ver os voluntários fazendo o almoço, uns no bazar e outros separando roupas para levar para a praça…. é simplesmente LINDO!!! A ALEGRIA que reina naquele lugar nos renova e prova que quando nos doamos de verdade (de coração) não há nada que nos pare ou canse… pois DEUS está sempre conosco!!!

    Mais uma vez OBRIGADA pela divulgação. Se me permite.. irei divulgar ainda mais este site… pois o texto está brilhante.

    Abraços fraternos!

Tem algo a dizer?





Please leave these two fields as-is: