Livres, loucos e delinqüentes

Eram anos negros para aqueles que ousassem ser livres, loucos e delinqüentes, a garoa fina cobria como um manto o céu paulistano naquele inverno de 1966. Tia Elvira, ousada como sempre, após diversos abortos resolveu ficar grávida aos 46 anos, algo impensável para a sua idade e em seu tempo de poucos recursos tecnológicos, mas Tia Elvira vivia em uma época de graça em sua alma sempre inquieta.
Ironicamente uma mulher que sempre esteve a frente do seu tempo, se viu pela primeira vez planejando o futuro devido a sementinha que crescia em seu ventre.
O país vivia uma ebulição social e política, como poucas vista em nossa história, de um lado um governo autoritário e ditatorial censurando toda e qualquer forma de livre expressão e do outro uma juventude angustiada, que encontrou nos protestos nas ruas, sua forma de extravasar, o termo “rebeldes sem causas” não caia bem para  aquela geração. Tia Elvira apesar de não ser uma adolescente, vivia entre os jovens e exerciam sobre eles toda sua capacidade de persuasão, não foram raras as vezes em que ela reuniam uma multidão de pessoas em um de seus discursos que causavam um frenesi aos estudantes da rua Maria Antonia em São Paulo, afinal ela conheceu  grandes pensadores  dos anos de 1950 e os entusiasmos “utópicos” dos esquerdistas que acreditam em um mundo melhor e harmonioso. Tia Elvira ao mesmo tempo que encantavam os jovens estudantes, provocava a ira dos conservadores escandalizados ao ver uma mulher de 46 anos grávida e ainda por cima mostrando sua barriga para o mundo!
Tia Elvira era utópica e idealista, acreditava que sozinha conseguiria modificar o mundo, ao mesmo tempo em que não acreditava em nada, talvez a gestação tenha realmente mudado a forma de ver o mundo.
Em uma de muitas visitas que fez a rua Maria Antonia, Tia Elvira se envolveu em um tumulto entre estudantes do Makenzie e da USP  que tinhas ideologias completamente opostas em relação a situação social e política da época, em meio a uma verdadeira guerra campal, tia Elvira sai gritando para os dois lados “ desse jeito vocês nunca serão livres!!!” era o prenúncio do que vinha por vir, sons de pneus cantando no asfalto, sirene, cães latindo, gritos e disparos de tiros...
Duas horas depois, Tia Elvira estava presa em uma cela do DOPS  com um bando de adolescentes, e uma moça de nome Marina lhe dissera que ela tinha idade para ser mão deles, Tia Elvira olhou bem nos olhos dessa moça de nome Marina e disse “ tenho idade para ser mãe do meu filho!!!”
Aos poucos todos os jovens foram dispensados da prisão restando apenas Tia Elvira, sua solidão e as dores por sofrer tanta tortura.
Tia Elvira descobriu que a solidão e o medo é pior do que qualquer tortura, sentia aflição pela sua gravidez complicada, se agarrava na esperança de um filho que estava por vir , dissera a um policial quando era torturada, que seu filho chamaria Brasil Livre, pois será assim que ele virá ao mundo em um país livre para todos, após dizer essas palavras o policial olha com ira nos olhos e acerta uma botinada na barriga de Tia Elvira!!
Três dias depois ela sofre um aborto, seu filho de nome Brasil Livre, nasceu morto e Tia Elvira nunca mais foi uma mulher a frente do seu tempo, um Leão quando enjaulado, esquece a finalidade de suas garras!

Comentários

Um Comentário para “Livres, loucos e delinqüentes”

  1. Tia Elvira e As quatro estações on fevereiro 24th, 2010 01:00

    [...] entravam em sua mente como um mantra e quando ouviu Pais e Filhos, lembrou do seu filho de nome Brasil Livre abortado em uma cela do DOPS, e por coicidencia Aborto Elétrico era o primeiro nome da banda que [...]

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