O Abajur Lilás

25/02/2008 · Imprima este artigo

Há tempos atrás fui apresentado à obra de Plínio Marcos, minha amiga Dani Brandão foi quem fez o favor de me acertar este “soco no estômago” tamanha intensidade contida na escrita deste ícone da dramaturgia nacional. Por isso, caro leitor, caso não tenha tido contato com o trabalho deste cara sugiro incluir em sua lista de experimentações para 2008 – ainda dá tempo! Agora se você já ouviu falar ou conhece sua literatura tenho certeza que não é de modo superficial, porque este conceito parece não existir no dicionário deste autor. O Abajur Lilás não foge ao estilo, e a montagem dirigida or Fernanda Levy e Eduardo Safiati mantém-se fiel à proposta textual.

A peça que é ambientada de forma a caracterizar-se como um bordel, ou casa de mulher da vida, mulher a toa, casa da luz vermelha, prostíbulo, puteiro ou boate dependendo do espaço e tempo em que o leitor se localiza aborda em sua trama as relações vividas por personagens socialmente marginalizados, como Dilma, Célia e Leninha, profissionais de uma das atividades mais antigas do mundo (e não estou falando dos Srs. da Lei ou dos Srs. Curandeiros e sim de prostitutas que, ao menos neste post serão tratadas por Dras. Putas – as Sras. do Prazer, título por mim outorgado evocando o mesmo princípio que rege o tratamento dado aos graduados que tem por fim afirmar a “justiça” e a “saúde”.)

Continuando além dos parênteses… existe também Jiro, o administrador da casa que para aumentar o lucro de seu negócio e atingir suas próprias metas utiliza de modernas técnicas de gestão de pessoas e motivação – o pití é uma delas. O povo brasileiro, crítico ferrenho do mau futebol, mas que admite os ganhos superiores a R$ 700.000,00 por mês recebido pelos craques da seleção enquanto seu ganho não ultrapassa os mínimos R$ 380,00 também está lá consultando-se periódicamente com as Dras. Putas – Sras. do Prazer que por sua vez estão sempre sob o ofídio olhar de Osvaldo, o brutamontes que um dia parece ter estagiado no DOI-CODI e leva a sério o fato de ordem e progresso serem atingidos na porrada, como em 64. Bom… ainda temos uma bela voz feminina e entre os clientes um religioso, mas destes dois personagens não farei comentários, pois nesse momento eu me embriagava em mais um brinde com minhas companheiras de platéia. TIM… TIM…

O cheiro da cachaça misturado ao perfume barato emanado dos corpos e do odorizador utilizado para recriar a sorvada esfera sensibiliza os sentidos e disfarça, não o cheiro de enxofre, mas o medo transvestido em autoridade, alcoolismo e angústias presentes no palco.

No cenário, destacam-se além do abajur lilás, um quadro do sagrado coração de Jesus e um aquário artificial multicolor importado do Paraguai. A trilha sonora traz uma seqüência de sambas conhecidos por muitos dos que ali estavam, com exceção do leigo sambista que vos escreve. Sei apenas que De frente pro crime de João Bosco e Aldir Blanc estava lá. Que tinha Zeca Pagodinho e se não me engano Cartola.

É pessoal… isso foi um pouco do que eu consegui digerir sobre este realista recorte da vida real encenado de forma artisticamente competente pela Cia. Independente de Teatro. E para fechar este post estendo o convite de Paulo Américo entoado na voz do agora estagiário de Caronte na Terra, Sr. Osvaldo:

 

Dê uma pausa na novela.
Deixe que eu te mostre o real,
Te apresente o submundo.
Siga os luminosos…
Deixe que eu te conduza
A um dos lados mais obscuros da vida.
Te ofereço um cardápio recheado de prazer…
Siga os luminosos…
E eu te apresentarei mulheres mal amadas,
Exibindo cicatrizes cortadas pela vida
Em navalhas cegas.
Fique nu e deixe que a noite te abrace.
Deguste a putrificação carnal,
E sinta no tempero o entojo da existência humana.
Experimente um drink, beba uma taça,
Mais um gole…
O mais doce orgasmo é o resultado das misturas.
Alimente a gula do seu instinto.
Penetre mulheres vazias, e saia saciado de nada.
Se envolva na atmosfera mais excitante,
E leve o brinde da sífilis.
Siga os luminosos.

Espetáculo: O Abajur Lilás (até 16/03/2008)
Onde? Espaço Cultural Toca dos Calangos, onde é possível locar o espaço para ensaios, atividades culturais e o que a criatividade lhe brindar.
Rua Frederico Abranches, 118 – Metrô Sta. Cecília – São Paulo - SP | Fone: 11 3258-0608 | 9967-5700 | grupocalangodeteatro@yahoo.com.br
Direção: Fernanda Levy e Eduardo Sofiati
Quando? Sábados às 21:00h. e Domingos às 19:00h.
Quanto: R$ 20 pilas | Estudantes pagam ½ entrada.
Duração: 90 minutos
Faixa Etária: 18 anos
+ Detalhes: cia.independentedeteatro@gmail.com

Technorati Tags: Teatro, Toca dos Calangos, Fernanda Levy, Eduardo Sofiati

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