OSESP sem frescura

17/03/2008 · Imprima este artigo

Como se comporta e o que sente a plebe em um evento considerado nobre como a apresentação da OSESP?

Uma incoerência aparente: como Bravus, nosso maior comprometimento é para com as manifestações artísticas alternativas. Contraditoriamente, assistir a um show da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo me soa um tanto aristocrático.

Domingo último (16/03), a entrada de um gol cor vinho do ano de 1986 a álcool no estacionamento da Sala São Paulo causou estranhamento. Dentro do veículo, visto uma camiseta preta e calça jeans, minha barba está por fazer e meus olhos marejam reclamando de uma ressaca causada pela noite anterior. No veículo ainda estão minha namorada e o outro Bravus Vini Atalaia. Não entendemos absolutamente nada de música clássica, mas ainda assim estamos ali para ver a apresentação (a preços populares) da OSESP.

Obviamente meu carro (fora aquele que parecia ser um Lamborghini) era o mais “antigo” do estacionamento. Não nos intimidamos, nos dirigimos a tão aclamada Sala São Paulo, considerada a de melhor acústica da América Latina, enquanto divagávamos sobre o fato de que quem menos conhece São Paulo ser o próprio paulistano.

Lá dentro é difícil não se surpreender com a arquitetura do prédio. Fiquei imaginando quais personalidades da nossa história teriam passado ali, tendo como testemunhas os balaústres.

Não nos intimidamos com o vestuário ali presente, contrastando com nosso modo simples de viver, pensei “eles também pagaram 2 reais para ver o espetáculo, foda-se”, e continuamos agindo naturalmente, estranho como eu tendia a me impor um modo natural de agir, pensamento que me fez agir de forma não natural, mas isso foi apenas um detalhe do meu complexo de plebeu em um território onde a maioria tenta aparentar nobreza, minha maior curiosidade seria quanto ao espetáculo – eles desejam popularizar a OSESP, mas será que o povo (eu) iria gostar do que a OSESP tem a oferecer ou ela se mostra sofisticada demais para um gosto popular (como o meu).

Não somos ignorantes musicais, pelo contrário, me vejo como um indivíduo sem preconceitos, sei que a música erudita é totalmente oposta, em seus preceitos técnicos, ao meu amado jazz, onde o improviso é tudo.

Mas como devo absorver a música? Entro na Sala.

Quando ouvi os primeiros acordes de violino soarem, estava sendo transportado, convidado a me desligar do mundo, seria aquilo uma espécie de meditação? tentei não pensar, apenas me deixar levar pelas sonoridades que me eram oferecidas.

A visão da OSESP é sublime, os músico estão impecavelmente atentos e concentrados. Não sei quem é quem, apenas um solista com seu violino está de pé, o que eu vou sentir quando ele tocar?

Não pense, Denis, não pense… deixe-se levar, será que é isso que devo fazer ou devo me ater a complexidade técnica com que os músicos executam a peça?

Foda-se, as ondas de violinos, violoncelos, metais, harpas, percussão, parecem me fazer flutuar, a melodia se apresenta leve, num tom que me soa um tanto celta, imagino um fauno dançando por entre os músicos e a tensão começa a tomar conta da harmonia como se uma nuvem carregada de trovões refletissem a mais profunda ira de Zeus.

Os metais sopram pesados e um arrepio percorre meu pescoço indo até o calcanhar, aquela música parecia ser a manifestação viva de seu compositor, um contato direto com seu cérebro angustiado.

Fim, os aplausos vem de pé e mais uma seção de arrepios e viagens começam, aquilo é realmente um diálogo – ou melhor – um monólogo, onde o compositor nos leva para as profundezas insanas de sua mente nos abraçando com seus sentimentos instáveis e polares.

O espetáculo dura pouco, mas vale muito mais do que os dois reais pagos. Uma curta apresentação perfeita da OSESP, ideal para leigos como eu, que se cansam facilmente.

Terminado o espetáculo, enquanto a nobreza saia, sem maiores comentários e esboçando um aparente tédio, nós comentávamos os sentimentos experimentados enquanto nos dirigimos para o Mercado Municipal para comer um pão com mortadela.

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