Papus Bravus com Drauzio Varella (e o cigarro…)
19/09/2008 · Imprima este artigo
Cigarro banido de São Paulo: 90% dos paulistas são a favor… mas apenas em lugares fechados.
Isso foi o que mostrou uma pesquisa encomendada pelo governo do Estado - e os próprios fumantes se mostram a favor: 78% dos fumantes são favoráveis ao veto ao fumo, 88% de ex-fumantes e 94% de não fumantes apóiam medida.
O resultado surgiu pelas mãos do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), que realizou, nos dias 4 e 5 de setembro, mil entrevistas telefônicas à pessoas a partir de 16 anos de idade, com graus de instrução e renda familiar diferentes.
Mas claro que houve ressalvas: dependendo do local considerado, a porcentagem de adeptos da idéia varia, principalmente quando questionados a respeito de bares e boates, lugar onde o tabaco rola solto, pois é considerado “propício ao fumo”, a porcentagem de favoráveis é menor que de outros locais.
Entre os fumantes, 84% apóiam a proibição do fumo em restaurantes e nos escritórios, enquanto 81% nos estabelecimentos comerciais e 47%, em bares e boates.
Se considerar todos os entrevistados, 91% acreditam que o consumo de cigarros e outros derivados do tabaco deve ser proibido em restaurantes e nos escritórios. Já 90% são favoráveis a vetar o fumo em estabelecimentos comerciais, e 75% nos bares e boates.
A necessidade da pesquisa surgiu por causa de um projeto que está rolando por aí onde o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos ou qualquer outro produto que se fume não será permitido em bares, restaurantes, hotéis, ambientes de trabalho, estudo, culto religioso, lazer, esporte e entretenimento. Ou seja, São Paulo está novamente seguindo as implantações de cidades do mundo afora, como já aconteceu com o “cidade limpa” e a limitação de caminhões de grande porte no centro.
Além desses espaços, nas áreas comuns de condomínios, casas de espetáculos, teatros, cinemas, pousadas, museus, bibliotecas e espaços de exposições também será proibido, assim como em centros comerciais, bancos, supermercados, açougues, padarias, farmácias, drogarias, repartições públicas, instituições de saúde, escolas e veículos de transporte coletivo, viaturas oficiais e táxis.
Fumar… eis aqui uma questão polêmica. Até aonde vai a liberdade de quem fuma? Até aonde quem não fuma deve suportar o hábito de quem fuma? Recentemente o Bravus.Net conversou com o Dr. Drauzio Varella durante um congresso em São Paulo, veja o resultado…

Bravus:Você era fumante que eu sei…
Dr. Drauzio Varella: Fui dependente de nicotina por 20 anos, comecei adolescente, quando não sabia o que fazer com as mãos durante as festas nos anos 60 e o cigarro estava em toda parte: televisão, cinema, outdoors… havia inclusive um comercial que dizia que tal médico recomendava tal marca de cigarro porque fazia bem à saúde.
Bravus: E como conseguiu largar o vício?
Dr.D.V.Quando fui trabalhar no Hospital do Câncer, a literatura científica já deixava clara a relação existente entre o fumo e diversos tipos de câncer como o de pulmão, esôfago, estômago, rim, bexiga e os tumores de cabeça e pescoço. Eu já se sabia inclusive que de cada três casos de câncer, pelo menos um era provocado pelo cigarro. Na irresponsabilidade que a dependência química traz, fumava na frente dos doentes e os recomendava a abandonar o cigarro. Fumei em ambientes fechados diante de pessoas de idade, mulheres grávidas e crianças pequenas. Quando eu era professor de cursinho, durante quase 20 anos, fumei nas salas de aula, induzindo muitos alunos a adquirir o vício. Quando me perguntavam: “Mas você é cancerologista e fuma?”, eu ficava sem graça e dizia que ia parar. Só que esse dia nunca chegava. A droga quebra o caráter do dependente. O vício da nicotina é uma das coisas mais difíceis de livrar o cérebro… eu sei porque quando fiz o trabalho no Carandiru, via os presos indo para a solitária… eram viciados em crack, cocaína… coisa pesada, mas quando saíam, depois de um mês, a primeira coisa que pediam era um cigarro. Eu mesmo, até hoje sonho com um cigarro e, se soubesse que eu morreria daqui a um minuto, acenderia um cigarro agora, tamanha a força da substância.
Eu sinto pelas pessoas não terem acesso a tudo o que eu vi sobre o cigarro e suas conseqüências… o cigarro não é um “ato de liberdade”, pelo contrário… o fumante está preso a ele. O tabaco não é “um problema do fumante”, pois quando as doenças se manifestam (e todas são horríveis), quem sofre junto com o fumante é a família e amigos, quais o fumante – e agora doente – fica totalmente dependente.
Nesses dias discuti com um homem do prédio onde moro, que disse que fumar era um direito de liberdade dele. Só que a liberdade dele afeta a todos ao redor, pois a fumaça – subproduto do cigarro – fica solta no ar, poluindo. Bem, então se eu gosto de tomar uma cerveja, meu subproduto é a urina. Tenho certeza de que nenhum fumante iria gostar que eu urinasse na caixa d’água do edifício, não?
Pelo visto, Drauzio é Bravus…











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