Um Nascer para a Rede
18/06/2008 · Imprima este artigo
Há um grupo de pessoas que se beneficia da internet de uma forma que podemos considerar limitada, mas que por causa da rede tem suas vidas transformadas. São mulheres e homens maduros merecem nossa atenção. Acompanhe meu relato:
Janeiro de 2004. Eu trabalhava em um colégio particular e o período era de férias. Quase nada pra fazer, um computador na minha frente e um amigo deprimido ao meu lado. Seu nome era Carlos, mas o chamamos de Carlão.
Carlão é um homem perto dos 60 anos. Pouco instruído, trabalha até hoje como inspetor de alunos no colégio, profissão que segue há mais de 20 anos. Em 2004 ele havia acabado de ser abandonado pela sua esposa que, enquanto ele trabalhava, chamou um caminhão, carregou com tudo o que havia na casa e partiu para destino ignorado. Carlão sofreu muito.
Eu, na tentativa de animá-lo, sugeri que procurasse uma nova companheira pela internet. Ele ficou meio incrédulo, nunca havia mexido em um computador na vida. Mal sabia o que era internet e duvidava de qualquer coisa eletrônica.
Expliquei para ele o que era internet, da existência dos sites de relacionamento e bate papos que poderiam acontecer. Chamei-o para sentar-se ao meu lado e, juntos, fizemos seu perfil em um desses sites de namoro. Na verdade fiz um perfil para mim, como exemplo e ele seguia meus passos, para que criasse uma intimidade com a máquina. Criamos um e-mail para cada (na época o zipmail) e navegamos juntos em busca de pretendentes. No fim da tarde, ele estava um pouco mais animado e até esperançoso, seria um bom passa tempo para ele.
No dia seguinte, logo cedo, ele me pediu para ver se havia chegado algum e-mail. Eu sorri e disse que ainda era cedo para algum resultado, mas abrimos seu e-mail para acabar com a sua ansiedade.
Quando vou para sua caixa de entrada, três mensagens de pessoas querendo conhecê-lo. “Uau”, pensei, “Este site é mesmo bom! Vamos ver as chuchucas que querem me conhecer, se o Carlão cabeça branca tem três, devo ter umas dez”. Na minha caixa de entrada, zero.
Os dias se passaram e o Carlão continuava recebendo e-mails. Como ele não tinha o plano pago do site, precisava esperar que mulheres com o “plano ouro” entrassem em contato com ele pelo módulo de bate papo enquanto ele estivesse logado, coisa que acontecia sempre. Ele me chamava, “Denis, tem uma mulher aqui querendo falar comigo, olha que coroa legal”. E, catando milho, Carlão começou a familiarizar-se com a máquina. Já não precisava tanto da minha ajuda e tinha marcado encontro com uma professora de Guarulhos para o sábado. Minha caixa de entrada: zero.
Em 6 meses Carlão havia saído com mais de 10 mulheres diferentes. Procurava sua alma gêmea. Empolgava-se quando conhecia, namorava um tempo e desencantava com a incompatibilidade de objetivos, duas semanas depois estava com outra. Até que conversou com uma outra professora, dessa vez de Manaus.
Enquanto minha caixa postal não saia do zero, Carlão conversava com sua amazonense, planejando um futuro juntos. Ela estava decidida a vir para São Paulo conhecer Carlão… e veio mesmo!
Carlão comprou seu próprio computador, de casa sua via seus e-mails, conhecia pessoas, pesquisava e comprava coisas. Aprendeu a utilizar a internet adequada às suas necessidades. Soube que se casou recentemente, não fui convidado para seu casamento mas fiquei muito feliz com a notícia, Carlão é um vencedor que não teve medo de encarar o desconhecido mundo dos bits.
Eu cheguei à conclusão que pessoas como o Carlão merecem produtos e conteúdo específico. Sites com navegação simples e intuitiva, sem muitas firulas ou excesso de informação. É um público importante que pode trazer bons retornos se incentivado. Você sabe o que eles querem? Sabe o que procuram? Eis algo a se pensar…
A prova maior da atenção que esse público merece e de seu potencial é que minha caixa de entrada, até hoje, continua no zero.











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